1968 na mira
Marcelo Ridenti** A Uma corrente de idéias começou a ganhar força ainda em 2007, quando Nicolas Sarkozy, então candidato à Presidência da República na França, propôs-se a acabar com o que resta de 1968. Antecipando-se à comemoração do quadragésimo aniversário daquele ano mítico, o jornalista Elio Gaspari prenunciava em sua coluna dominical o tom (auto)crítico que têm tomado as discussões sobre 1968, ao dizer que o melhor seria que aquele ano não tivesse existido, ao contrário de 1989, este sim o ano significativo, devido à queda do império soviético. Ele criticava a sacralização de 1968, que omitiria o culto dos jovens rebeldes à violência das massas (Folha de S. Paulo, 26/12/2007, p. A9). Por sua vez, o ex-guerrilheiro e deputado Fernando Gabeira declarou que gostaria de “dizer adeus a tudo isso” (Época n. 503, 7/1/2008, p. 70). Nada contra a necessidade apontada por Gaspari da crítica à mistificação daquele ano, sua sacralização e certa “sessão saudade de 1968”. Mas qual 1968? Os movimentos contestadores de então foram muito diversificados, do pacifismo daqueles que pregavam paz e amor contra a guerra no Vietnã ao revolucionarismo dos que achavam que flores não vencem canhões, como dizia a canção de Vandré, inspirada no exemplo da revolução cubana. O inconformismo ia da primavera de Praga contra o socialismo real às insurgências contra o capitalismo mundo afora; do surgimento do que se convencionou chamar de questão das minorias – como as lutas específicas de mulheres, negros e homossexuais – à contracultura e ao movimento ambientalista. Para tomar a rica agitação artística do período no Brasil, 1968 foi o ano do nacional-popular e também de seu antagonista declarado, o movimento tropicalista, ambos disputando para saber quem seria de fato revolucionário. Eles entravam nas casas pela televisão, especialmente nos festivais da canção, o que era indicativo de uma contradição: a contestação do período vinha junto com um novo patamar de amadurecimento da indústria cultural. Um jovem que lê o artigo de Gaspari pode imaginar que os rebeldes e revolucionários de 1968 estavam afinados com o poder soviético. Ora, 1968 foi justamente a expressão do inconformismo com a ordem da guerra-fria, crítico do que Guy Debord chamou à época de sociedade do espetáculo, tanto do “espetacular concentrado” do “capitalismo burocrático” dos países herdeiros do stalinismo, como do “espetacular difuso” da abundância do capitalismo contemporâneo, que acabou triunfando e hoje prevalece soberano (Debord, Guy. La société du spetacle, Paris, Buchet-Chastel, 1967). Para aqueles que, passados 40 anos, fazem um balanço de vida, acertar as contas com 1968 pode significar coisas diferentes: há os que se penitenciam pela aposta de jovens rebeldes da época na violência popular, os que atestam os exageros da liberdade sexual que redundaram na aids, sem contar que a crença no potencial libertador do uso de drogas acabou tragicamente, como é sabido. Tampouco faltam os que usam a legitimidade conquistada em 1968 para justificar sua atuação política no presente, fazendo leituras enviesadas do passado. E ainda, claro, os que se recusam a qualquer tipo de crítica ao que se passou. Também os estudos acadêmicos espalham-se por todo o planeta, fazendo uma infinidade de interpretações, desde aquelas que vêem 1968 como uma insurgência contra o capitalismo até as que o consideram um exercício de modernização social, prefigurando o ressurgimento do individualismo dos anos 1970 e 80; desde os que tomam 1968 como expressão de conflito de um novo tipo, mais cultural e político do que econômico, até os que o analisam como conflito de classe tradicional; desde interpretações centradas na crise da universidade e revolta da juventude até as que enxergam a perda de uma oportunidade revolucionária. O tema revela-se apaixoante e inesgotável, o mais provável é que um encadeamento de circunstâncias explique a época de 1968, cujos limites e ilusões a experiência histórica viria a revelar. O que teria dado unidade a essa época, apesar das diferenças entre as várias propostas rebeldes e revolucionárias? O sentimento generalizado de que transformações sociais profundas estavam ao alcance das mãos, e de que a humanidade caminhava para elas. Parecia possível e urgente transformar, e não conformar-se com a ordem establecida pela guerra fria. Há quem interprete os anos 1960 – e particularmente 1968 – como a era da teoria. De fato, não faltavam teorizações sobre o que se passava, e elas eram encarnadas apaixonadamente pelos militantes. Mas a ação importava muito mais do que as teorias. Mais do que interpretar o mundo, buscava-se transformá-lo, liberando o potencial criativo da humanidade para mudar a vida em todos os seus aspectos, construindo alternativas de existência que fugissem da polarização entre o capitalismo norte-americano o modelo soviético de socialismo, contra os quais os movimentos de 1968 se rebelavam. São bem-vindos todos os debates, análises, críticas e autocríticas sobre a época de 1968, que deve ser desmistificada, como tudo. O que não se deve esconder é o fundo político que cerca o debate após 40 anos: o contraste entre os sentimentos e idéias, hoje predominantes, de que é preciso adequar-se ao mundo tal qual ele está constituído, com as aspirações que prevaleciam então em setores sociais expressivos, que atuavam coletivamente para tranformar a ordem. Quando Gaspari afirma ter sido “1989 que permitiu aos revolucionários de 1968 a acomodação de suas idéias e biografias ao século XXI”, ele expressa com clareza a reintegração da maioria dos intelectuais críticos e outros agentes sociais dos anos 1960 à ordem estabelecida, como se ela fosse inevitável. Ora, a esperança de 1968 não foi derrotada em 1989, ao contrário, fizera a profecia da falência daquele tipo de regime. Mas esperava-se que o fim do chamado socialismo real redundasse numa vida social em patamar superior ao que prevalecia na era da guerra-fria, não no triunfo avassalador de um dos lados. Subjacente a afirmações como as de Gaspari, há um desejo latente de recusar alternativas à organização social, política, econômica e cultural em moldes capitalistas, uma pressa em colocar no mesmo barco as utopias de 1848, 1917, 1968, como se todas elas tivessem sido derrotadas em 1989. Expressa-se o combate às forças herdeiras das lutas de 1968, que têm levantado de diversas perspectivas a palavra-de-ordem “um outro mundo é possível”. No aspecto político, o que está em jogo hoje no debate sobre 1968 não é tanto a interpretação de suas causas e conseqüências, a crítica indispensável ao que se passou, mas a luta em novos termos entre os que se acomodaram à nova ordem mundial e aqueles que herdaram o espírito de 1968. Esses apostam que é possível e necessário construir uma nova ordem, em que os valores fundamentais não sejam os do lucro, mas da convivência e realização plena dos seres humanos, em suas relações entre si e com a natureza, que se expressam em lutas pela preservação do meio ambiente, da igualdade entre os sexos, as culturas e as etnias, sem contar os embates renovados por um socialismo democrático. Ou seja, não se trata de encastelar-se no passado, recusando qualquer crítica a ele, mas de compreender alcances e limites das lutas de 1968, que entretanto deixaram ao menos um legado: o inconformismo, em contraste com um tempo como o nosso, em que prevalece o conformismo com a ordem mundial dos vencedores da guerra-fria. * Artigo publicado originalmente na revista Teoria e Debate, Edição Especial, ano 21, maio de 2008. ** Professor Titular de Sociologia na Universidade de Campinas (UNICAMP) e pesquisador do CNPq. Autor de Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução (Record, 2000), entre outros livros. Paris 1968 – o reverso da
Paris 1968 – o reverso da utopia
Augusto Buonicore*
A"Meu conselho é que esqueçam de maio de 68. Por quê? Porque acabou! Foi extraordinário, formidável, mudou nossas vidas, mudamos a vida. Mas não vamos voltar ao tema eternamente". Daniel Cohn-Bendit, 40 anos depois.
Neste mês em que comemoramos os 40 anos das grandes mobilizações operário-estudantis que abalaram a França e o mundo, a palavra de ordem que mais se houve é “esqueçam 1968!”. Por sinal este é o título do último livro do ex-l’enfant terrible da esquerda ortodoxa, outrora vermelho e hoje verde, Daniel Cohn-Bendit. O presidente direitista Sarkozy, por sua vez, chegou afirmar que sua eleição representava o último prego no caixão de Maio de 1968. Então duas questões nos assaltam: O que foi o Maio de 1968? Será que ele ainda tem algo a nos ensinar nos dias de hoje?
Não podemos julgar um movimento daquela envergadura apenas tendo por referência o imaginário construído pelas lideranças estudantis e intelectuais a elas vinculados, como Sartre, Morin, Castoriadis e Marcuse. Estes tendiam ver a juventude universitária como a vanguarda revolucionária da sociedade, em substituição ao proletariado cada vez mais integrado ao sistema capitalista. Consideraram o movimento em curso naquele momento apenas a realização prática da liberdade, negação de toda e qualquer tipo de autoridade. Castoriadis chegou mesmo a afirmar que o Maio de 1968 “abriu um novo período na História Universal”.
Eram teses, em geral, elaboradas no calor da hora. Faltava aos seus portadores o distanciamento crítico necessário para uma análise mais profunda – fruto mesmo de suas propensões ideológicas. Confundiram as aparências (das palavras de ordem libertárias) com o conteúdo de classe real daquele movimento
Por outro lado, não devemos julgar aquele movimento pelo que veio acontecer com a sociedade francesa e alguns de seus principais personagens, como Cohn-Bendit, Geismar, Roland Castro etc. Alguns teóricos, a partir de uma avaliação unilateral pós-fato, afirmaram que aquilo nada mais foi que uma ação necessária para que se abrisse o caminho à renovação do capitalismo – ou mesmo para que se criassem as condições para a hegemonia do neoliberalismo.
Quem melhor expressaria esta idéia seria Regis Debray. Abandonando o esquerdismo – e as teses foquistas das quais foi o principal formulador – ele escreveu “Modesta contribuição às cerimônias oficiais do décimo aniversário”. Neste texto provocativo afirmou que o Maio de 1968 foi o “berço da nova sociedade burguesa”. Da mesma forma que a “república burguesa tinha festejado, na tomada da bastilha, seu nascimento, ela festejará o início de seu renascimento na tomada da palavra em 1968”. Debray afirmou existir uma “harmonia natural (…) entre as rebeliões individualistas de Maio e as necessidades políticas, econômicas e sociais do grande capitalismo liberal”. Continuou ele: “A comunhão dos egos sobre as barricadas tornou-se o egocentrismo generalizado, o sacrifício de si, o culto do eu …, a exaltação das liberdades, a confirmação das desigualdades”. Ou seja, o movimento contestatório de 1968 produziu algo bastante diferente do que anunciara nas barricadas, numa espécie de “astúcia da razão” hegeliana – ou, mais precisamente, numa “astúcia do capital”.
Existe ainda uma outra versão dessa mesma tese, só que defendida pela direita francesa. Segundo Sarkozy: “Os herdeiros de Maio de 68 impuseram uma idéia de que não havia nenhuma diferença entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira (…) que o aluno era igual ao professor (…) A herança de maio introduziu o cinismo na sociedade e na política” Ela havia “debilitado a ética do capitalismo e preparou o terreno para o capitalismo sem escrúpulos”.
O destino de algumas das principais lideranças estudantis de 1968 parecia confirmar estas teses. Muitos transitaram de posições esquerdistas para o reformismo social-democrático ou mesmo para o liberalismo tout court. Cohn-Bendit, por exemplo, passou do anarquismo para posições favoráveis a guerra contra a Sérvia. Isso, no entanto, não depõe contra o Maio de 1968, apenas demonstra os limites políticos e ideológicos de sua direção.
O retrocesso no nível de consciência – que leva à capitulação diante da ideologia dominante e a integração à ordem – é um fenômeno típico dos períodos de recuo revolucionário. Isso aconteceu após a derrota da Comuna de Paris (1871) e da primeira revolução russa (1905). Muitos intelectuais revolucionários pequeno-burgueses abandonaram as alternativas coletivas e optaram por saídas individuais. Portanto, o que ocorreu na França e em outros países capitalistas, depois da derrota de 1968, não foi uma completa novidade histórica.
Volto à questão inicial: o que foi o 1968 parisiense? Acredito que ele não chegou a se constituir propriamente numa revolução, como advogam os trotskistas, mas foi bem mais do que um simples protesto de estudantes “enfurecidos”, como afirmaram alguns de seus críticos. A junção de uma série de fatores, objetivos e subjetivos, criaram os germes de uma crise revolucionária que acabou não sendo aproveitada. Crise revolucionária ainda não é revolução.
A França não atravessava uma crise econômica de graves proporções, vivia em meio aos “30 anos gloriosos” do capitalismo europeu. Isso não significava que os operários tivessem colhido todos os frutos desse desenvolvimento. Naqueles anos, pelo contrário, já começava a sentir uma relativa queda nos níveis salariais e do emprego, além do aumento do ritmo do trabalho. Nada que não tenha ocorrido em outras ocasiões. Assim, as teses economicistas estavam desarmadas para entender aquele acontecimento que abalou a sociedade francesa.
Poucos anos antes, o país havia perdido suas colônias na África e Ásia. Foi derrotada pelos vietnamitas na famosa batalha de Dien Bien Phu (1954) e obrigada a dar independência para Argélia, depois de uma longa e sangrenta guerra colonial (1962). Por isso, naquele início de 1968, um fato ocorrido num lugar distante teve ali grande repercussão. Em fevereiro as tropas norte-vietnamita, sob o comando de Ho Chi-Minh, realizaram uma grande ofensiva político-militar contra as forças pró-imperialista do sul. Chegaram mesmo a invadir a embaixada dos Estados Unidos em Saigon. A solidariedade internacional ao povo vietnamita e a luta contra a intervenção estadunidense no conflito asiático atingiram um novo patamar.
A contestação estudantil na França teve como um dos seus estopins a repressão que atingiu uma manifestação contra a guerra do Vietnã. Alguns jovens atacaram o escritório da American Express e um deles acabou sendo preso. No dia 22 de Março os estudantes ocuparam a reitoria da Universidade de Nanterre, periferia de Paris, e ocorreram choques com grupos de extrema-direita. O reitor solicitou a intervenção da polícia, que invadiu a escola. Nova intervenção policial ocorreria em 2 de maio.
A partir desse momento começaram as mobilizações de solidariedade na tradicional Universidade de Sorbonne. Novos conflitos com os direitistas ocorreram e a própria sede da União Nacional dos Estudantes Franceses (UNEF) sofreu um atentado. O reitor tomou a infeliz decisão de, também, convocar a polícia. No dia 3 a universidade foi invadida e fechada. Sorbonne. Sua ocupação pela polícia foi como um ato de sacrilégio para a intelectualidade e os setores médios da sociedade. Estava dada a largada para o maio quente francês.
No dia seguinte os estudantes tomaram o Bairro Latino, onde se encontrava a universidade, e foram duramente reprimidos. O movimento se alastrou e os confrontos de rua se multiplicaram. Alguns dos líderes foram presos e condenados há vários meses de prisão. Cohn-Bendit, emigrado alemão e um dos líderes estudantis, foi ameaçado de ser expulso da França. Surgia uma nova palavra de ordem: “Somos todos judeus alemães!”. Graças à crise vivida pelo Partido Comunista, nas universidades fervilhavam grupos de extrema-esquerda: anarquistas, trotskistas, maoístas etc.
No dia 6 cerca de cinqüenta mil estudantes marcharam sob o Arco do Triunfo. Ocorreram novos confrontos. A repressão usava cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo e os jovens respondiam com as pedras retiradas do calçamento. Estas se tornariam um dos símbolos daquele movimento.
O auge do enfrentamento ocorreu em 10 de maio, no que ficou conhecido como “a noite das barricadas”. Uma nova manifestação marchou por Paris e passou diante da prisão onde ainda se encontravam os líderes estudantis presos. Logo após, os participantes resolveram, numa proposta insólita, tomar o Bairro Latino e cercar à polícia que ainda se encontrava alojada na Sorbonne. Ergueram-se barricadas – o slogan era “Vamos cercar a polícia!”. Na calada da noite o governo decidiu desocupar as barricadas e começou a luta de rua. Nos choques que se seguiram, dezenas de pessoas ficaram feridas.
As imagens da violência policial indignaram os parisienses e aumentou a solidariedade popular aos estudantes. Ao contrário do que se podia imaginar, naqueles dias conturbados, o movimento estudantil gozou de simpatia da maioria da população da capital. Hobsbawn falou em 61% de pessoas favoráveis ao movimento e apenas 16% que lhe eram claramente hostis.
Em resposta a violência policial, os estudantes rebelados ocuparam as demais universidades. As centrais sindicais, atendendo ao pedido de apoio, convocaram uma greve geral para o dia 13 de maio. Nesta data cerca de um milhão de pessoas marcharam pelas ruas de Paris. Lado a lado, mas não muito confortáveis, estavam os dirigentes do movimento estudantil, das centrais sindicais e do Partido Comunista. O conflito subitamente mudou de qualidade. Escreveu Hobsbawn, “somente esta segunda fase criou possibilidades revolucionárias”.
A greve geral foi planejada para durar apenas de 24 horas, mas ela desencadeou uma reação em cadeia, provando que o descontentamento dos operários era tão grande quanto o dos estudantes. Greves espontâneas começaram a pipocar até se transformarem numa outra greve geral por tempo indeterminado. Um dos pontos de partida foi a paralisação da fábrica Sud-Aviation em Nantes, ocorrida em 14 de maio.
No dia seguinte foi a vez da Renault em Cleon paralisar seus trabalhos. O exemplo foi seguido pelas demais empresas, inclusive a Renault de Billancourt – a maior fábrica do país com os seus mais de 35 mil trabalhadores. O método era o mesmo: paralisação, ocupação da fábrica e “seqüestro” da direção da empresa. As bandeiras vermelhas tremularam nos portões de algumas empresas.
O número de trabalhadores em greve cresceu de maneira geométrica. No total, cerca de 10 milhões de trabalhadores se envolveram no movimento paredista que durou mais de duas semanas e atingiu seu ápice entre os dias 22 e 23 de maio. Era, segundo alguns historiadores, a maior greve geral que se teve notícia na história do capitalismo até então. Esse é um lado pouco conhecido do Maio parisiense. Esquecimento necessário para a construção do mito sobre a passividade operária.
A gigantesca greve operário-estudantil, que ganhou amplo apoio dos setores médios urbanos, levou a uma semi-paralisia do regime do general De Gaulle. Criando uma das mais graves crises políticas desde o fim da II Guerra Mundial. Desenhava-se no horizonte uma crise revolucionária e o velho general, enfraquecido, tentava manobrar em meio à turbulência que ameaçava devorá-lo.
No dia 24 de maio, o presidente anunciou que o governo realizaria algumas reformas educacionais e prometeu um aumento salarial para os trabalhadores. Imediatamente os representantes governamentais e patronais começaram a negociar com as centrais sindicais uma pauta de reivindicação. Os resultados dessas conversações seriam os chamados “acordos de Grenelle”, numa referência à rua onde se localizava o Ministério do Trabalho, lugar da negociação.
Nos acordos eram estabelecidos: aumento de salário de 10%, redução gradual da jornada de trabalho, reconhecimento dos sindicatos dentro das fábricas etc. No entanto, uma das principais reivindicações do movimento grevista que era a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais não foi conseguida. Ela já havia sido conquistada na greve geral de 1936, durante o governo da Frente Popular, e depois foi retirada pelos governos conservadores que se seguiram. Os operários tinham a esperança de poder reconquistá-la através da sua greve.
Os patrões concordaram apenas com a redução em duas horas – até 1970 – das jornadas acima de 48 horas e de uma hora para as jornadas de 45 e 48 horas. Durante as negociações o líder sindical comunista Krasucki afirmou: “é preciso ter por objetivo o retorno às 40 horas, sem fixar uma data, com um regulamento contratual por indústria”.
Levando em conta a situação da indústria francesa, o tamanho da greve e a gravidade da crise política, as conquistas foram relativamente pequenas. Por esse motivo, os acordos foram amplamente rejeitados nas assembléias operárias e, inclusive, o número de grevistas chegou a aumentar. Criava-se assim uma crise de representação.
Para o historiador comunista inglês, “os operários foram mais avançados que seus dirigentes” ao levantar questões que iam para além do simples aumento de salários, como o “controle social da indústria”. Continuou ele: “Se o PC tivesse reconhecido a existência e o alcance do movimento popular e agido adequadamente, teria adquirido suficiente impulso para forças seus aliados indecisos de esquerda tradicional a seguir a sua linha” e concluiu categórico: “os que perdem a iniciativa perdem o jogo”. Séguy, secretário-geral da CGT, no auge do movimento, afirmou: “Os dez milhões de operários em greve não reivindicam o poder para a classe operária e sim melhores condições de vida e de trabalho, e a imensa maioria deles expressou sua adesão à democracia com a palavra de ordem: governo popular.”
Aproveitando-se dos impasses vividos pelo movimento, De Gaulle ensaiou uma ofensiva. Em 29 de maio viajou até às bases militares francesas na Alemanha Ocidental para obter o apoio do general Massu, conhecido carrasco do povo argelino. Voltou ao país e fez um duro pronunciamento público contra o perigo representado pelos comunistas, anunciou a dissolução da assembléia nacional e a convocação de novas eleições. No mesmo dia uma manifestação de cerca de 1 milhão pessoas, a chamada “maioria silenciosa”, marchou em apoio ao presidente e contra a greve geral. Em 13 de junho, dentro dessa ofensiva conservadora, foram proibidas as organizações políticas de extrema-esquerda (anarquistas, trotskistas e maoístas).
O PCF e o Partido Socialista se uniram para defender o fim das greves para poderem preparar melhor as eleições, que acreditavam poder vencer. As direções sindicais realizaram acordos setoriais. A partir de então o movimento estudantil refluiu e as greves, que ainda resistiam, foram sendo aniquiladas pela repressão patronal. A Renault de Billancourt voltaria ao trabalho em 17 de junho. Poucas greves resistiriam até o final daquele mês.
O resultado desse processo foi que, traindo todas as expectativas, a direita venceu amplamente os dois turnos das eleições parlamentares, que se realizaram nos dias 23 e 30 de junho. Os partidários de De Gaulle aumentaram sua bancada de 358 para 487 cadeiras. Um fato inédito.
Hobsbawn escreveu criticamente: “A prova de fogo de um movimento revolucionário não é sua disposição para erguer barricadas em qualquer oportunidade, mas sua presteza em reconhecer quando as condições normais da rotina política deixam de funcionar e em adaptar seu comportamento a nova situação.” Aquela organização que deveria ser a vanguarda “manteve-se por detrás das massas sendo incapaz de reconhecer a seriedade dos movimentos estudantis até que as barricadas foram erguidas, de reconhecer a disposição dos operários para uma greve geral indefinida até que as ocupações espontâneas forçaram a mão de seus líderes sindicais, apanhados de surpresa uma vez mais, quando os operários rejeitaram os termos do acordo para por fim a greve”.
As esquerdas não conseguiram estabelecer uma tática que permitisse romper o impasse criado. Enquanto o PCF jogava todas as suas cartas na preparação das eleições parlamentares, a palavra de ordem esquerdista era “eleição é traição”. Uns apostavam tudo na espontaneidade (despolitizada) do movimento e outros nas eleições, que poderiam trazer uma vitória da esquerda. Desse desencontro histórico foi se construindo a vitória político-eleitoral de De Gaulle e dos porta-vozes da ordem.
Apesar do caráter utópico do projeto esboçado por parte importante das lideranças estudantis e intelectuais, o Maio de 1968 não foi a realização, ainda que fugaz, da utopia anárquico-comunista. Ele, pelo contrário, foi à expressão de uma luta de classes que atingiu um patamar bastante elevado, pondo em xeque a estabilidade do regime e em polvorosa a burguesia e seus representantes. A greve geral operária deu ao movimento uma radicalidade qualitativamente maior que as palavras de ordem pichadas nos muros de Paris. Neste sentido podemos dizer que, ao contrário do que pensam muitos de seus interpretes, o Maio de 1968 foi o reverso da utopia.
Imagens de 1968
Para ver galeria de foto sobre o levante operário estudantil em Paris 1968 clique no link abaixo:
http://www.topfoto.co.uk/gallery/paris1968/ppages/ppage1.html
Documentário (em francês) sobre o movimento de maio de 1968:
http://www.youtube.com/watch?v=BcDCsCGdOm4&feature=related
Cenas da luta de barricadas de 10 de maio:
http://www.youtube.com/watch?v=aFUUZFM1ORk&feature=related
Algumas cenas da greve geral que abalou a França:
http://www.youtube.com/watch?v=rWkcVt5GY-I&feature=related
Bibliografia
Ali, Tariq – “Mayo del 68. Adónde ha ido a parar toda la rabia?” in Rebelión, 31/03/2008
Cohn-Bendit, Daniel – O grande bazar, Ed. Brasiliense, 1988.
Duclos, Jacques – Anarquistas de ontem e de hoje, Ed. Sociais, 1974
Ferry, Luc e Renaut, Alain – Pensamento 68, ed. Ensaio, 1988.
Matos, Olgaria C. F. – Paris 1968: As barricada do desejo, Ed. Brasiliense, 1981
Mandel, Ernest – Da Comuna a Maio de 68, Ed. Antídoto, 1979
Hobsbawn, Eric – “Maio de 1968” in Revolucionários, Ed. Paz e Terra, 1985
*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp
A Revolução do Eu
José Carlos Ruy*
Os slogans do maio de 68 rejeitaram a política e colocaram o sonho, o desejo e a autonomia na ordem do dia. E a revolução, longe de ameaçar o capitalismo, ajudou a preparar o futuro deste sistema, com a globalização e o neoliberalismo
Duas datas do século XX ficaram como ícones da luta social e política: são as revoluções russa de 1917 e o maio de 1968, cujos 40 anos se comemoram agora. Foram acontecimentos em que as massas irromperam no cenário político, com repercussão mundial, assinalando mudanças substanciais no modo de viver. Foram confrontos com o sistema capitalista. Um deles - 1917 - resultou na construção da primeira experiência socialista estável e prolongada da história. O outro - 1968 - teve a marca de oportunidades perdidas (Jameson, 1991) e de uma grande reformulação no próprio funcionamento e organização do sistema.
Uma imagem parcial
O que ficou no imaginário popular sobre o movimento de 1968 que ficou é a do levante estudantil, juvenil, cujo resultado foi a ruptura com a maneira marcadamente hierárquica, convencional, que prevalecia até então. 1968 trouxe a informalidade, a quebra de padrões rígidos, a liberdade de costumes (principalmente sexuais) e uma alegada tolerância em relação às diferenças. “Cada um na sua” é o lema que exprime bem aquelas mudanças, apontando para um individualismo que seria exacerbado nas décadas seguintes.
“É proibido proibir” talvez seja a bandeira de 1968 mais conhecida. Mas houve outras, com sentido semelhante. “A imaginação no poder”, ou “seja realista, exija o impossível”, foram outros; nos EUA surgiu o lema “make love not war” (faça amor, não a guerra), que se espalhou pelo mundo como bandeira pacifista e crítica do modo de vida estadunidense, trazendo embutida uma nova visão de mundo.
Estas bandeiras resultaram da luta social que vinha desde o final da Segunda Grande Guerra, e que se acelerarou nas décadas de 1950 e 1960, aprofundando a exigência por direitos civis, pela igualdade e pelo fim da discriminação racial. A luta anti-racista, contra a opressão da mulher e a resistência contra a guerra ganharam grande visibilidade num movimento cujo centro estava nos EUA e na Europa industrializada, que foram cenário de grandes eventos sinalizadores da força da luta popular.
Dois ocorreram nos EUA: em agosto de 1963, 200 mil pessoas se reuniram em Washington para ouvir o famoso discurso Eu tenho um sonho, de Martin Luther King, contra a discriminação racial; mais tarde, em abril de 1967, milhares de pessoas ocuparam a capital dos EUA na Marcha pela Paz, contra a agressão estadunidense ao Vietnã.
Em maio do ano seguinte, foi a vez de Paris e do levante que ficou impresso na história como o grande marco daquela década, o chamado movimento de maio de 1968.
A imagem de 1968 como ano revolucionário, difundida pela mídia e incorporada como um de seus traços definidores pelo sistema que os protagonistas de 1968 pensavam combater, é parcial e reflete o principal limite daquele movimento. A imagem de um maio juvenil encobre a forte luta operário daquele período, que precisa ser resgatada.
Maio foi tema de inúmeras interpretações e análises. Em um artigo de 1969 o historiador Eric Hobsbawn dizia só em 1968 foram publicados, na França, 52 livros sobre o tema (Hobsbawn, 2003).
Em 1985, os franceses Luc Ferry e Alain Renaut resumiram as principais interpretações no livro Pensamento 68. Havia para todos os gostos. A direita e o governo francês de Charles De Gaule e George Pompidou viram nos acontecimentos um complô subversivo. Outros reduziram tudo a uma crise da universidade, que havia crescido muito: desde a década de 1950 o número de estudantes universitários foi multiplicado por três, chegando a 650 mil. Para intelectuais de renome (desde Edgard Morin até o direitista Raymond Aron) o que houve foi uma revolta juvenil, numa visão fortemente psicologista. Outros pensaram que foi sintoma de uma crise civilizacional, com o questionamento da sociedade de consumo (André Malraux) e o ressurgimento do niilismo anarquizante. Houve também aqueles que diagnosticaram um descontentamento político contra a longa permanência de De Gaulle no poder e contra os mecanismos autoritários da III República francesa. Para os comunistas, por sua vez, era a luta de classes, refletindo a crise econômica (crescimento da economia em queda desde 1966) e o desemprego (que em 1968 era quatro vezes maior do que em 1964) (Ferry e Renaut, 1988).
Da política à cultura e ao comportamento
Hobsbawn disse que o final da década de 1960 foi um período "ruim para os profetas". Acreditava-se, escreveu, ser "possível fazer uma revolução em um país industrial avançado em condições de paz, prosperidade e aparente estabilidade política." Mas a "revolução não triunfou", embora o regime político "mais orgulhoso e autoconfiante da Europa", chefiado por De Gaulle, tenha chegado "à beira do colapso" (Hobsbawn, 2003).
O desafio é resgatar o que está oculto sob camadas de tintura midiática e mercadológica: o que de fato ocorreu? Como o mais extenso desafio enfrentado pela burguesia dos países capitalistas industrializados na segunda metade do século XX esvaiu-se em uma mudança cultural e comportamental substancial mas insuficiente para levar ao chão a Bastilha do capitalismo e fundar uma sociedade nova?
Os problemas que precisam ser investigados são múltiplos. Eles dizem respeito, entre outros, às mudanças no sistema capitalista e seu impacto na forma de vida social; a crise econômica e a resposta burguesa a ela; a incapacidade do movimento revolucionário em propor uma saída articulada e avançada para a crise.
A problemática política dos acontecimentos na França foi analisada por Eric Hobsbawn no artigo de 1969, que apontou duas fases da mobilização em Paris: a primeira, de 3 a 11 de maio, envolveu os estudantes; a outra, de 14 a 27 de maio, trouxe os operários para as ruas com a maior greve geral da história da França. O movimento popular manteve a iniciativa até 29 de maio, quando o governo De Gaulle - apanhado desprevenido - conseguiu retomar a dianteira.
Hobsbawn destacou o papel dos comunistas. Uma frente popular sob hegemonia do Partido Comunista, que controlava a central sindical mais poderosa, seria a única "alternativa viável de governo", escreveu. Mas aquela frente tinha muitos problemas, entre eles a morosidade dos aliados não comunistas. Além disso, lembra que o PCF não mobilizou as massas e perdeu a oportunidade histórica de formar um governo que reunisse as forças mais avançadas do país (Hobsbawn, 2003).
Não se pode esquecer que, naquela época, o movimento comunista ainda não se havia recuperado da crise aberta, em 1956, com o XX Congresso do Partido Comunista da URSS e sua opção pela coexistência pacífica e pela via eleitoral para o socialismo. Esse quadro foi agravado por acontecimentos como a ocupação soviética da Hungria em 1956 e pela condenação soviética (e depois repressão militar) da chamada "Primavera de Praga", um movimento de abertura política na Tchecoslováquia. Na China, desde 1967, estava em curso a Revolução Cultural Proletária, cujo apelo à juventude causou grande impacto entre a esquerda juvenil no ocidente industrializado, fazendo de Mao Tse Tung um dos teóricos de algumas correntes estudantis de 1968.
A rejeição ao comunismo pelos estudantes parisienses tinha raízes nessa crise. Naquela conjuntura renasceram entre eles tendências libertárias anarquizantes, traduzidas em slogans anti-autoritários como a denúncia de todas as formas de poder, e na valorização da subjetividade e do desejo: um deles dizia, por exemplo, “tomo meus desejos por realidade pois acredito na realidade de meus desejos”. Havia, nisso tudo, uma forte rejeição do comunismo.
Nesse quadro, ao hostilizar De Gaulle e também aos comunistas, os estudantes acabaram ajudando o próprio governo, fragilizando o movimento de massas, pois os operários, sob hegemonia comunista, não pensavam da mesma forma que seus jovens companheiros de jornada. Ao retomar a iniciativa, a tônica gaulista foi justamente o anticomunismo, registra Hobsbawn: ele “transformou a situação em uma defesa da ‘ordem’ contra a ‘revolução vermelha’” (Hobsbawn, 2003).
Estagnação, inflação e desemprego
O maio parisiense não foi um acontecimento isolado. Sua transformação em ícone do movimento ecoa a longa tradição revolucionária da capital francesa. A cidade convulsionada durante maio revivia protagonismos ancestrais, como 1848 ou a Comuna de Paris, de 1871, numa das principais capitais do mundo capitalista industrializado.
Mas aqueles acontecimentos não foram somente franceses. Naquela época, o forte crescimento econômico do pós guerra, na Europa e nos Estados Unidos, perdia ímpeto. Ao mesmo tempo, a nova geração – os filhos do baby boom do imediato pós guerra - cresceu embalada pela promessa de uma sociedade abastada, uma vida segura e um bem estar material crescente.
Promessa quebrada com a crise dos anos 60, devido à queda nas taxas de crescimento entre 1960 e 1979 em países como EUA, França, Alemanha Ocidental, Inglaterra e Japão. No conjunto, o crescimento dos países da OCDE caiu da média anual de 5,1% em 1960-1968 para 4,7% entre 1968-1973 e 2,6% entre 1973-1979. O próprio “milagre japonês” balançava: as taxas anuais médias de crescimento cairam de 10,4% entre 1960-1968 e de 8,4% entre 1968-1973, para 3,6% entre 1973-1979. Era o fim dos "anos dourados" do pós guerra, acumulando problemas e contradições que refletiam a acentuada queda na produtividade e na lucratividade nos países industrializados. Nos EUA, por exemplo, a taxa de lucro caiu de quase 6% em 1964 para algo em torno de 4,5% em 1970 (Harvey, 1992).
Contradições aprofundadas
A crise econômica acentuou as contradições que eclodiriam em maio de 68. A luta social e sindical vinha desde o final da guerra. Nos EUA, andou de braços dados com a luta contra o racismo e a opressão da mulher. Lá, diz o historiador Sean Purdy, durante o esforço de guerra, "muitas indústrias foram forçadas a contratar negros e rever classificações operacionais discriminatórias". A resistência contra o racismo era muito forte entre os trabalhadores negros e apenas em um ano (1943) houve cerca de 242 motins raciais, "provocados por tensões econômicas e sociais relativas a emprego e moradia", em 47 cidades, entre elas Detroit, "onde 34 pessoas (25 negros e nove brancos) morreram e 700 ficaram feridas" (Purdy, 2008).
Quando a guerra terminou, a burguesia estadunidense começou a manobrar para cercear o movimento operário, cuja derrota "preparou o terreno político para os tipos de controle do trabalho e de compromisso que possibilitaram o fordismo" (Harvey, 1992). Na época a presença comunista nos sindicatos estadunidenses era forte e havia representantes do Partido Comunista dos EUA em onze dos 35 sindicatos filiados à CIO (Congress of Industrial Organizations). Eles foram expulsos daquela organização entre 1949 e 1950 (Herling, 1965), preparando o caminho para a fusão daquela central com a AFL (American Federation of Labor), em 1955.
Esta fusão pode ser vista, diz Jameson, como fundamental “para o desencadeamento da nova dinâmica política e social dos anos 60”. A expulsão dos comunistas e a fusão ("que foi um triunfo do macarthismo") consolidaram o "novo contrato social apolítico entre os empresários e os sindicatos", criando "uma situação em que os privilégios da força de trabalho masculina e branca asseguram-lhe a precedência face às demandas dos trabalhadores negros, das mulheres e de outras minorias" (Jameson, 1991).
Desta forma, as contradições sociais que vinham das décadas anteriores se aprofundaram, alimentadas pela segregação racial e pela opressão da mulher. Elas foram enfrentadas por um forte movimento grevista que desmente a tese muito difundida - principalmente por teóricos de grande evidência naqueles anos, como Herbert Marcuse - do "aburguesamento" da classe operária e sua acomodação aos valores vigentes.
O pós guerra também foi um período de fortes mudanças na economia dos EUA, "afetando os trabalhadores em geral, mas especialmente as pessoas dos bairros pobres e negros das grandes cidades". A indústria começou a se deslocar para lugares onde os trabalhadores eram menos organizadas e a mão de obra mais barata. Primeiro, diz Purdy, "os subúrbios brancos das grandes cidades e depois para os estados anti-sindicais do Sul e eventuamente para outros países", minando os ganhos dos trabalhadores (Purdy, 2008).
Nos EUA, a extensão da resistência dos trabalhadores pode ser medida pelas greves dos anos 1960 e 1970, com destaque para a grande greve de 200 mil trabalhadores dos correios de 1970. A luta era contra os patrões e o governo, e também contra os sindicalistas pelegos. “Movimentos ‘de base’ de mineiros e de caminhoneiros criticavam a burocracia, a corrupção e o conservadorismo dos seus líderes sindicais, conseguindo democratizar alguns aspectos do movimento sindical ligados às suas atividades profissionais” (Purdy, 2008).
Os governos John Kennedy e Lindoln Johnson, nos EUA, tentaram contornar estes problemas com um programa moderado de combate à pobreza. Mas seu "fracasso em resolver antigos problemas sociais, como o racismo, provocaram uma explosão de diversos movimentos sociais - por direitos civis, paz, liberdade sexual e cultural”. Entre 1963 e 1968 ocorreram 341 motins urbanos de negros em 265 cidades, diz Purdy. O movimento por direitos civis, diz ele, foi o “mais importante movimento social na história dos Estados Unidos”. O auge de suas mobilizações foi 1963, quando ocorreram mais de 1.412 manifestações; em uma única semana mais de 15 mil pessoas foram presas em protestos em 186 cidades (Purdy, 2008). A ligação entre a luta anti-racista e o protesto operário foi simbolizada pelo assassinato de Martin Luther King, em 4 de abril de 1968: naquele dia ele estava em Memphis (Teneesse) justamente para apoiar uma greve de trabalhadores negros.
Nos EUA, naquela época, surgiram várias organizações de protesto, que fortaleceram o movimento black power e o nacionalismo cultural afro-americano, e elas estavam ligadas à luta dos trabalhadores. Nos anos 1970, a Liga Revolucionária de Trabalhadores Negros organizou metalúrgicos negros em várias fábricas de automóveis. Uma organização como o Partido dos Panteras Negras tinha, em 1970, segundo um relatório do FBI, a simpatia de 25% da população negra (aumentando para 43% entre os menores de 21 anos). "Justamente por causa dessa popularidade ampla, a organização foi esmagada, entre 1969 e 1971, pelo FBI com muitos dos seus líderes assassinados ou presos em ações policiais" (Purdy, 2008).
Greves na Europa
Na Europa, a situação não era diferente e o movimento grevista crescia por todos ao lados. Na França, foi de Decazeville (1961 e 1963), cidade industrial e de mineração no sul do país, a Nantes, a oeste, em 1964. Em abril de 1965, os 12 mil metalúrgicos da Peugeot e da Berliet, pararam; em fevereiro de 1967, a fábrica de aviões Dassault, em Bordéus, a oeste, parou; houve paralizações, naquele ano, em toda a região de Lyon, mais para o sul. Em março e abril de 1967 foi a vez dos metalúrgicos de St. Nazaire, próxima a Nantes; em janeiro de 1968, uma greve na fábrica de caminhões Saviem, em Caen, no norte, teve confrontos com a polícia. Estes são apenas alguns exemplos da luta operária cujo auge foi a grande greve geral de maio-junho de 1968.
Outro cenário da luta operária foi a Itália. Apenas alguns exemplos: em novembro de 1968 houve paralização de trabalhadores rurais em Ávola, Sicília, onde os dois grevistas morreram em choques com a polícia. Em abril de 1969 uma paralização em Battiplaglia iniciou o movimento grevista no norte; seu centro foi a fábrica da Fiat, em Turim, e a luta se estendeu até dezembro, incluindo a greve geral de 3 de julho, contra o aumento dos aluguéis.
Assim, em 1968, o norte industrial italiano parou em conseqüência das greves, barricadas e conflitos. Um deles ocorreu em Maghera, um polo industrial que tinha então em torno de 60 mil trabalhadores, a meio caminho entre Pádua e Veneza. Ali, a greve começou em junho, com uma inovação: a reivindicação de salário igual para todos, inaceitável para os patrões e para os dirigentes sindicais. Quando os grevistas decidiram marchar sobre Veneza, houve choque com a polícia, com feridos nos dois lados; ao fim, a polícia se retirou e a multidão de 50 mil estudantes e operários marchou para a histórica cidade, onde ocuparam a Praça San Marco e dançaram até a madrugada.
Espontaneidade x liderança estruturada
Os acontecimentos de Maghera são significativos por juntar dois traços inspirados no movimento de Paris, no mês anterior - a mistura de luta e festa e as reivindicações fora do contexto tradicional das lutas operárias - com aquela que foi a caraterística própria do maio italiano: a união dos operários e dos estudantes.
Eles exemplificam o diagnóstico feito por Eric Hobsbawn trinta anos depois daqueles acontecimentos. Os "movimentos mais característicos de 1968", escreveu, “idealizaram a espontaneidade e se opuseram à liderança estruturada e estratégia. Sua ideologia natural deveria haver sido o anarquismo” (Hobsbawn, 1998).
O maio de 68 assistiu assim à reestréia da ação direta na luta de massas, trazida pela nova esquerda e seus novos personagens da história - os estudantes, os negros, as mulheres e outras minorias minorias oprimidas. Alguns teóricos daquele movimento - com destaque outra vez para Herbert Marcuse - chegaram a defender a tese de que estes novos personagens seriam os substitutos, dali para a frente, do proletariado como coveiros do capitalismo…
Nos EUA, um aspecto marcante das lutas dos jovens nas décadas de 1960 e 1970 foi o pacifismo. Além da denúncia contra o imperialismo, havia uma razão muito concreta: muitos jovens estadunidenses não aceitavam participar da guerra contra o Vietnã. Essa rejeição levou a um desengajamento inédito, enfraquecendo o apoio popular à guerra. Milhares de jovens rasgaram as convocações que recebiam para alistar-se. Muitos fugiam; cerca de 50 mil foram para o Canadá para escapar ao serviço militar. “Até 1968, manifestações, motins e ocupações foram comuns em faculdades por todo o país. Várias grandes manifestações feitas em Washington entre 1967-1970 inflamavam a oposição à guerra, quebrando o consenso político nacional e enfraquecendo a resolução dos governos em continuar o conflito” (Purdy, 2008). Entre 1967 e 1971, o número de desertores passou de 47 mil para 90 mil.
As condições concretas de maio de 68
Não há roteiros pré-estabelecidos para os movimentos revolucionários: eles ocorrem em situações históricas concretas e singulares; são condicionados pela situação particular em que se encontram as classes sociais, pela correlação de forças entre elas e pela compreensão mais ou menos clara que os agentes sociais e políticos tem da situação concreta, das tarefas postas ao movimento e da capacidade de enfrentá-las e superá-las.
A luta de massas da década de 1960 é um exemplo. Ele envolveu dois movimentos distintos e confluentes – a luta de classes do proletariado e também a luta de negros, mulheres e jovens pela igualdade por reivindicações “específicas”.
Por várias razões – que vão desde as articulações de governos conservadores e da direita patronal até a impotência das organizações proletárias em formular saídas próprias para a crise – a luta do proletariado não teve êxito. Na ausência de um programa proletário para romper o impasse e avançar, prevaleceram as palavras de ordem anti-autoritárias, subjetivistas e com ênfase na mudança de costumes, que foram características do movimento juvenil e das chamadas minorias.
Esta foi uma das ambiguidades daquele movimento, como o marxista estadunidense Frederic Jameson apontou. E ele vai além na caracterização daquelas ambiguidades: embora houvesse um forte traço anticapitalista naquelas lutas, elas acabaram sendo funcionais para a nova etapa do desenvolvimento capitalista. “Os anos 60”, escreveu ele, “frequentemente imaginados como período em que o capital e o poder do Primeiro Mundo estão em retirada por toda parte, podem também igualmente ser encarados como período de expansão inovadora e plenamente dinâmica do capitalismo, equipado com todo um arsenal de técnicas e novos ‘meios de produção’" (Jameson, 1991).
A revolução do eu
Na década de 1960, a crise do sistema capitalista impunha a busca de novos caminhos, com mudanças profundas na organização da produção, na sociedade e na política. Eram escolhas conflitantes e a opção por uma delas dependia dos rumos que a luta de classes tomaria. E estes rumos dependiam, por sua vez, da capacidade do proletariado e de sua liderança em formular um projeto de sociedade mais avançado, ultrapassando as contradições e abrindo caminho para ao progresso social. Mas nem o proletariado nem sua direção pareceram, naquela conjuntura, capazes de chegar a tanto.
Hobsbawn também chamou a atenção para este ponto. Foi significativo, escreveu, que a rejeição ao capitalismo não tenha sido feita “em nome de outro padrão de ordenação da sociedade, embora o novo libertarismo recebesse uma justificação daqueles que sentiam que ele precisava de tais rótulos, mas em nome da ilimitada autonomia do desejo humano. Supunha um mundo de individualismo voltado para si mesmo levado aos limites.
Paradoxalmente, os que se rebelavam contra as convenções e restrições partilhavam as crenças sobre as quais se erguia a sociedade de consumo de massa, ou pelo menos as motivações psicológicas que os que vendiam bens de consumo e serviços achavam mais eficazes para promover sua venda” (Hobsbawn, 1995).
Isto é, na falta de um projeto de reorganização da sociedade, e frustrada a luta por uma superação classista das contradições do capitalismo – cujo horizonte fosse a transição para uma nova sociedade – prevaleceu a revolução do eu, prenúncio do liberalismo que viria nas décadas seguintes. “Assumia-se tacitamente agora”, prossegue Hobsbawn, “que o mundo consistia em vários bilhões de seres humanos definidos pela busca de desejo individual, incluindo desejos até então proibidos ou malvistos, mas agora permitidos - não porque se houvessem tornado moralmente aceitáveis, mas porque tantos egos os tinham" (Hobsbawn, 1995).
A nova fase do desenvolvimento capitalista impunha o consumo de massas, e esta era a via para a satisfação daqueles desejos. A velha ética do trabalho baseada na produção, num padrão de consumo austero e na economia para o futuro, ficava para trás. Em seu lugar, abria-se um período hedonista, de busca do prazer e da satisfação de impulsos individuais, com ênfase no consumo – isto é, de subordinação ao desejo – centrado no indivíduo e suas ansiedades.
Além disso, o capitalismo tornava-se, pela primeira vez, verdadeiramente global. As últimas zonas remanescentes de pré-capitalismo eram, cada vez mais, coisa do passado. “Os anos 60 terão sido então o momentoso período de transformação em que essa reestruturação sistêmica se fez em escala global” (Jameson, 1991).
Thomas Frank, um analista estadunidense, chamou a atenção para o aspecto mercadológico da mudança. Para ele, a crise cultural e social dos anos 60 significou um ajuste: agora, o capitalismo estava baseado no consumo e na diferença do acesso aos bens de consumo. As classes se consolidaram, diz ele, e isso impunha, para aqueles de renda mais alta, a necessidade de inventar novas diferenças para diferenciar-se da massa, levando à busca de novos padrões de identidade e à rejeição do convencional (na moda, no comportamento, no estilo de vida). Tudo como marca de distinção em relação aos demais, em relação à massa. Daí para a ênfase no desejo era um passo.
"A cultura jovem tornou-se a matriz da revolução cultural no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes, nos meios de gozar o lazer e nas artes comerciais, que formavam cada vez mais a atmosfera respirada por homens e mulheres urbanos”, escreveu Hobsbawn. Um exemplo da nova situação foi a explosão do consumo dos jovens, ilustrada pelo crescimento na venda de discos ou nas mudanças no mundo da moda. Nos EUA, vendiam-se 277 milhões de discos em 1955, quando surgiu o rock. Em 1959, passou para 600 milhões; em 1973, alcançou a marca de 2 bilhões – sete vezes mais. Na França, 1965 foi o ano em que a indústria de roupas femininas produziu mais calças do que saias (Hobsbawn, 1995).
Ensaio geral para o neoliberalismo
A trajetória de Jerry Rubin é emblemática dos rumos seguidos após os anos 60. Ativista da nova esquerda, ex-líder estudantil da Students for a Democratic Society (SDS), o principal movimento estudantil nos EUA na época, foi fundador do Youth International Party (Partido Internacional da Juventude), dos yippies, envolvendo rock, drogas e esquerdismo. Naquela ocasião, informa a Wikipedia, declarou que os “yippies são os verdadeiros revolucionários da Era de Aquário”.
Menos de duas décadas depois, Rubin era um capitalista de sucesso, investidor da Apple Computers e teórico dos yuppies individualistas dos anos 80; agora, ele defendia que “a criação de riquezas é a verdadeira revolução americana”.
A trajetória dos hippies da década de 1960 foi dar nos yuppies de vinte anos mais tarde – e o traço de união entre as duas figuras foi o individualismo do cada um na sua.
A crise do capitalismo atravessou os anos 70 e a saída para ela foi conservadora, e não revolucionária; burguesa, e não proletária. Ela concretizou-se com as as campanhas vitoriosas do republicano Richard Nixon para a presidência da República nos EUA em 1968 e 1972 e sua promessa de restaurar a lei e a ordem. Mais adiante, no final da década de 1970, a direita se consolidou com um “projeto feroz para ‘restabelecer a autoridade social’” (Purdy, 2008). O sonho libertário de 1968 traduziu-se então no pesadelo anunciado pela ascensão ao poder de Margareth Thatcher, na Grã Bretanha, e de Ronald Reagan, nos EUA. E deixou a impressão amarga de que todo aquele vigoroso movimento foi parte do ensaio geral da globalização e do neoliberalismo.
Referências
Analyses et documents
1973 - As greves selvagens na Europa Ocidental (tradução portuguesa de Analyses et documents, nº 182-183, março de 1970). Porto, Afrontamento
Ferry, Luc, e Ranaut, Alain
1988 - Pensamento 68 - ensaio sobre o anti-humanismo contemporâneo. São Paulo, Ensaio
Frank, Thomas
1998 - The conquest of cool. Chicago, University of Chicago Press
Harvey, David
1992. Condição pós-moderna. São Paulo, Loyola
Herling, John
1965 - História dos Sindicatos nos EEUU. Rio de Janeiro, Lidador
Hobsbawn, Eric
1995 - Era dos extremos. São Paulo, Cia das Letras
1998 - "O ano em que os profetas falharam". Folha de S. Paulo (Mais!), 10.5.1998
2003 - "Maio de 1968". In Revolucionários. Rio de Janeiro, Paz e Terra
Jameson, Frederic
1991 - "Periodizando os anos 60". In Pós Modernismo e política. Heloisa Buarque de Hollanda (org). Rio de Janeiro, Rocco
Purdy, Sean
2008 - "O século americano". In Leandro Karnal e outros. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo, Contexto
Internet: http://en.wikipedia.org/wiki/Jerry_Rubin
Assassinaram um estudante. Ele poderia ser seu filho
Augusto Buonicore*
O assassinato de estudantes não era novidade durante o regime militar. Mas, naquele final de março, a morte de um garoto de 18 anos, durante uma manifestação, galvanizaria a oposição democrática e popular e daria início o maior movimento de contestação à ditadura desde a sua implantação em 1964.
Acima o corpo de Edson Luís é guardado por estudantes na Assembléia Legilativa, abaixo, cenas do enterro.
***
Um tiro na tarde
Tudo começou com uma manifestação de estudantes contra o preço e as más condições do restaurante Calabouço. Esta não foi o primeiro protesto daqueles jovens que, em geral, eram secundaristas e filhos de famílias empobrecidas. Muitos, além de suas refeições, faziam ali pequenos serviços para complementar sua renda. Portanto, o seu perfil era muito diferente daqueles que freqüentavam as universidades brasileiras.
Os manifestantes do Calabouço, como de hábito, foram atacados pela Polícia Militar. Mas, desta vez, eles não estavam dispostos a apanhar ou correr, como vinham fazendo desde 1964. Por isso, tomaram a corajosa decisão de reagir e o fizeram com paus e pedras. A polícia, desprevenida e assustada, recuou diante desse primeiro confronto. Logo em seguida voltou à carga com redobrada violência, utilizando-se de bombas de efeito moral e tiros. A ordem para a fuzilaria partiu do general Osvaldo Niemeyer Lisboa. No conflito que se estabeleceu um rapaz caiu mortalmente ferido. Seu nome era Edson Luís de Lima e Souto e a data 28 de março de 1968.
Artur Poerner, no seu livro “O poder jovem”, resumiu assim a breve vida do jovem assassinado: “Tratava-se de um menino ainda – completara 18 anos no dia 24 de fevereiro -, parecia baixinho, a pele morena e os cabelos bem pretos e lisos de caboclo nortista. Os dentes – tinha-os estragados, como a maioria dos jovens de nosso país. Órfão de pai, viera, há três meses, de Belém do Pará, para cursar o Instituto Cooperativo de Ensino, anexo ao Calabouço, onde passava a maior parte do dia, inclusive auxiliando em serviços burocráticos da secretaria e de limpeza no estabelecimento, pois não conseguia emprego. As esperanças que o trouxeram ao Rio estavam ali agora, transformadas no sangue que manchava a caminha branca empunhada pelos seus colegas”.
O oficial que comandava a tropa, sem medo de parecer ridículo, afirmou que a “Polícia Militar atirou por se encontrar numericamente em situação inferior aos estudantes, inclusive em quantidade de armas”. Niemeyer foi afastado de seu posto para que as investigações pudessem ser feitas de maneira isenta. No entanto, ninguém seria punido pela morte do estudante. A impunidade para os “crimes do Estado” seria uma das marcas do regime instalado em 1964.
Em editorial, o Correio da Manhã, revelava toda sua indignação: “Não agiu a Polícia Militar como força pública. Agiu como bando de assassinos (…) A Guanabara, cidade civilizada e centro cultural do Brasil, não perdoará os assassinos”. O general-presidente, Costa e Silva, quando assumiu o cargo, no começo de 1967, prometeu solenemente abrir o diálogo com os trabalhadores e estudantes descontentes. Acenou até mesmo com a possibilidade da eleição de um civil em 1971. Meses mais tarde ficou claro que o único diálogo que o regime conhecia era o da violência.
Os estudantes se recusaram a entregar o corpo de Edson Luís à polícia, temendo que pudesse desaparecer. Por segurança, ele foi levado para a Assembléia Legislativa onde se realizou uma longa e tensa vigília. O governo estadual proibiu a presença da PM no local, mas ela desobedeceu às ordens e realizou atos de provocação, atirando bombas de gás lacrimogêneo e prendendo populares. O clima ficou explosivo.
A notícia da morte do estudante correu de boca em boca. As escolas e teatros cariocas fecharam suas portas. “A impressão que se tem hoje, evidentemente exagerada, é de que todo o Rio de Janeiro passou pelo velório. Nunca a Assembléia havia recebido a visita de tantas celebridades”, escreveu Zuenir Ventura. As filas eram intermináveis e também os discursos. Coroas de flores chegavam a todo momento. Um espírito de indignação tomou conta da cidade. Mataram um estudante. E agora?
Neste luto, começa a luta
O enterro de Edson Luís foi a primeira grande manifestação contra o regime militar. Mais de 50 mil pessoas tomaram as ruas numa última homenagem ao estudante morto. Eram universitários, secundaristas, professores, artistas, clérigos e profissionais liberais. Havia também muitos elementos populares. Uma faixa se destacava: “Assassinaram um estudante. Ele poderia ser seu filho. Das janelas caiam flores e papel picado. Parecia uma reprodução da “marcha da família com deus pela liberdade” com sinais invertidos. Foi a explosão das frustrações de amplos setores das classes médias que haviam apoiado o golpe - em nome da liberdade e da luta contra a corrupção – e agora viam suas expectativas traídas.
No cortejo os estudantes, como de praxe, queimaram uma bandeira dos Estados Unidos e cantaram o hino nacional. Sob o caixão foi colocada a bandeira brasileira. Nada mais justo, o corpo do pequeno Edson, naquele momento, representava o grito represado de toda uma nação.
Diante da casa de Carlos Lacerda ouviram-se vaias e gritos de “fascista” e “abaixo a frente ampla” **. Sinais evidentes da radicalização que vivia o movimento estudantil, particularmente sua vanguarda, sob hegemonia da Ação Popular e de setores de extrema-esquerda dissidentes do PCB. Ironicamente nas semanas seguintes o governo militar acusou a Frente Ampla e Lacerda de incentivarem aquela manifestação.
Sem condições de reprimi-la, o regime tentou esconder a manifestação. Naquele final de tarde as luzes da cidade, misteriosamente, não foram acesas. Esforço inútil. Durante todo o trajeto, os motoristas acendiam os faróis e muitos comerciantes forneciam velas e lanternas. A multidão transformava os jornais em archotes, que queimavam rapidamente. O improviso acabou dando mais grandiosidade à cena. Ninguém esqueceria aquele dia. No final, a massa presente fez um juramento solene: “Neste luto, começou a luta!”.
A notícia do assassinato de Edson Luís teve impacto na maioria dos estados, inflamando o movimento estudantil e oposicionista. Em Goiânia a Polícia Militar invadiu a Catedral Metropolitana, ferindo à bala vários estudantes. O secundarista e engraxate Ornalino Cândido da Silva de apenas 16 anos veio a falecer. Ele parecia muito com uma das principais lideranças secundarista da cidade: Euler Ivo. Isso criou certa confusão quanto à identidade do morto.
Em Brasília também ocorreram confrontos violentos entre estudantes e policiais. Outro jovem levou um tiro no peito. Nos dois casos, seguindo o exemplo dos cariocas, os estudantes enfrentaram a polícia com pedras e paus. Para os estudantes brasileiros a fase de só fugir ou apanhar havia passado. “Dente por dente, olho por olho” era a nova palavra de ordem que surgia nas ruas.
A morte também provocou cisão nas próprias fileiras golpistas. No dia seguinte ao assassinato, o General Mourão Filho – presidente do Superior Tribunal Militar e o principal expoente do golpe de 1964 – declarou: “É incrível que a polícia atire contra estudantes, em uma democracia. Estou indignado, fora de mim, com tais acontecimentos (…) quando se permite que policiais atirem contra estudantes, não podemos ficar tranqüilos em casa, pois fatos como esses poderiam atingir qualquer pessoa de nossas famílias”.
Lacerda, rompido com o regime desde 1965, aproveitou-se do momento para elevar o tom de suas críticas. “A violência tornou-se norma nas relações entre o governo e o povo. (…) Ninguém deseja a baderna, mas ninguém suporta a crueldade e a covardia. É inaceitável que o Exército trate os estudantes como uma horda de inimigos”. Continuou ele: “O Brasil está ultrajado pela orgia da violência (…) É tempo de fazer a revolução pela qual a mocidade anseia, a revolução pela educação e o voto”. Em breve ele constaria da lista de novas cassações.
1º de abril: Nada a comemorar
O próximo encontro entre estudantes e a repressão já estava marcado. Seria quando das comemorações do quarto aniversário do golpe militar. No dia 31 de março o general-presidente Costa e Silva, com as mãos sujas do sangue de dois estudantes secundaristas, afirmou: “Eles querem sangue, mas o país prosseguirá sem sangue porque não estamos com a idéia de violência. Nós queremos a paz”. Paz era uma coisa que não haveria nos dias - e anos - que se seguiriam.
O Correio da Manhã narrou o que aconteceu no dia seguinte: “Por cinco horas e meia (…) mais de cinco mil elementos da PM agrediram, com violência nunca vista, estudantes e populares participantes do movimento de protesto na Guanabara” Continuou o jornal: “O Rio converteu-se num campo de batalha. A polícia caçava pelas ruas estudantes, intelectuais e homens do povo, como se fossem representantes de uma nação inimiga”. Um detalhe: desta vez o número de policiais ferido foi tão grande como o de civis. Afirmou Zuenir Ventura: “poucas vezes a polícia apanhou tanto no Rio de Janeiro”.
Segundo Poerner, 60 manifestantes e 39 policiais ficaram feridos e mais de 321 pessoas foram presas. Mas, a luta continuava bastante desigual: pedras contra balas. Outros dois jovens tombaram mortos na Guanabara: David de Souza Neiva e Jorge Agripino de Paula. Outros quatro ficaram feridos à bala. O I Exército ocupou as ruas da cidade e o general Costa e Silva ameaçou: “custe o que custar a ordem será mantida”. Falava-se na decretação do Estado de Sítio e mesmo na promulgação de um novo ato institucional, ainda mais draconiano que os anteriores. Este era o único diálogo que a ditadura conhecia.
A missa de 7º dia pela morte de Edson Luís também foi marcada pela violência. Como se preparasse o cenário para uma tragédia, o governo decretou ponto facultativo e feriado bancário. Foi sugerido aos comerciantes que não abrissem suas lojas. Desde as primeiras horas, a cidade foi tomada pelo exército. Havia um odor insuportável de pólvora saturando o ambiente. Na missa da manhã, encomendada pela Assembléia Legislativa e ocorrida na Candelária, as pessoas foram cercadas e massacradas pela cavalaria quando saiam pacificamente da igreja. A mesma coisa ameaçava se repetir à noite.
Dom José de Castro Pinto, vigário-geral, foi pressionado para que a missa da noite não ocorresse. O clérigo se manteve firme e realizou o ato religioso ao lado de mais 15 padres. Nas ruas que davam acesso à igreja, policiais e soldados intimavam os que desejavam entrar. Precisava ter muita coragem para romper o cerco armado e muitos tiveram. Bombas de gás lacrimogêneo eram lançadas a esmo. O cheiro do gás tomou conta do interior do templo que estava completamente lotado. Todos ali temiam pelo pior. A Candelária era uma verdadeira praça de guerra.
Visando proteger os que saiam da igreja, os padres formaram um cordão de isolamento que separava o povo dos cavalarianos enfurecidos. À frente do estranho cortejo estava o vigário geral. Apenas quatro anos antes a cúpula da igreja católica abençoava os golpistas e agora protegia os contestadores do regime. As coisas, realmente, estavam mudando no país.
A Frente Ampla – rechaçada pelos estudantes no enterro de Edson Luís – pagaria a conta pelos acontecimentos daqueles dias. Em abril, no dia seguinte a missa, uma portaria do Ministro da Justiça proibiu sua existência. Estabeleceu a prisão de quem, estando banido ou cassado, fizesse qualquer pronunciamento político. “O governo foi ao cerne da crise estudantil ao decidir proscrever a Frente Ampla, jogando-a na clandestinidade. As manifestações de rua provaram que a semeadura da Frente Ampla estava caindo em terreno favorável (…) A linha da agitação correspondeu inteiramente à linha de ação política da Frente Ampla”, afirmou alguém ligado ao regime.
A morte de Edson Luís ocasionou uma mudança de posição política das classes médias em relação ao movimento estudantil. Passaram a reconhecer nele um certo papel de vanguarda de suas aspirações democráticas. De um apoio difuso passou-se a um apoio ativo.
Após a missa, a diretiva da União Metropolitana dos Estudantes foi para que os estudantes voltassem para dentro das universidades. Vladimir Palmeira, presidente da entidade, afirmou: “Ultrapassada a última fase de manifestações a palavra de ordem é retornar às escolas, promovendo assembléias para o debate político dos acontecimentos e para a estruturação das medidas necessárias ao atendimento das reivindicações específicas da classe estudantil”.
O recuo foi provisório. Dentro de mais alguns meses o movimento estudantil e popular tomaria novamente as ruas nos maiores movimentos de enfrentamentos à ditadura militar: a sexta-feira sangrenta e a passeata dos cem mil. Esse é assunto para alguma de minhas próximas colunas.
Notas
Tratarei das razões mais profundas da crise política que eclodiu no Brasil em 1968 num artigo que sairá no próximo número da revista Princípios.
A Frente Ampla foi criada em 1966 e congregava personalidades políticas oposicionistas de diversas matrizes ideológicas, como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart. A presença de Lacerda, um antigo golpista, levava que setores de esquerda alimentassem desconfiança em relação a ela.
Bibliografia
Dirceu, José e Palmeira, Vladimir – Abaixo a ditadura: movimento de 68 contado por seus líderes, Ed. Garamond, 1998.
Martins Filho, João Roberto – Movimento estudantil e ditadura militar (1964-1968), Ed. Papirus, 1987, SP.
Poerner, Artur J. – O poder jovem, Ed. Civilização brasileira, 1979.
Reis Filho, Daniel Aarão e Moraes, Pedro de – 68: a paixão de uma utopia, Ed. FGV, 1988
Saes, Décio – Classe medis e sistema político no Brasil, T.A Queiroz Editor, SP, 1985
Sanfelice, José Luís – Movimento estudantil: a UNE na resistência ao golpe de 64, Ed. Autores Associados, 1986
Sirkis, Alfredo – Os carbonários: memórias da guerrilha perdida, Ed. Global, 1992.
Skidmore, Thomas – Brasil: de Castelo a Tancredo, Ed. Paz e Terra, SP/RJ, 1994
Valle, Maria Ribeiro do – 1969: o diálogo é a violência, Ed. Unicamp, 1999.
Ventura, Zuenir – 1968: O ano que não terminou, Ed. Nova Fronteira, 1988.
*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp
40 anos de 1968: ‘’distopias ficam, utopias permanecem*
Diorge Alceno Konrad**
Em livro lançado há alguns anos, o jornalista Zuenir Ventura caracterizou o ano de 1968 como o ano que não terminou.[1]
Uma análise mais aprofundada daquele processo histórico deve considerar o que realmente se esgotou nos episódios da época e o que ficou para a lembrança dos 40 anos dos movimentos ou para o futuro das diferentes sociedades. Para isso temos que entrar na “memória de 1968. Densa e marcante. Exemplos de luta que inspiram o estudo de seus erros e acertos. Trajetórias que merecem análise, por tudo o que pretenderam, embora quase tudo esteja por conquistar, ainda hoje”.[2]
É cada vez mais necessário o rompimento com duas tradições de interpretação que no fundo se baseiam na mesma forma de ver o passado: a primeira delas é a crítica conservadora, na qual se vê o fracasso de 1968 como o fim das utopias ou o fim das possibilidades de transformação revolucionária das sociedades; a segunda delas é o saudosismo de setores de esquerda que busca nos anos 60 em geral, e de 1968 em particular, uma volta a um passado perdido.
No primeiro caso, o ano de 1968 é referência para estruturar uma visão de mundo de tentativa de negação da História, dando a ela um fim, acompanhada de propósitos que estabelecem também o fim das ideologias, o fim das classes sociais e suas lutas. Essa perspectiva, permeada por um recorte irracionalista, baseada em percepções pós-modernas ou pós-estruturalistas, parte de um paradigma de relativização absoluta da verdade e do conhecimento.
No segundo caso, o ano de 1968 é referência para determinar uma visão de mundo onde uma forma de romantismo estabelece uma idealização de um passado perdido que é perpetuado, não servindo de referência crítica para a possibilidade de transformação do presente.
As visões citadas acima se baseiam em visões conservadoras e tradicionalistas de sociedade, sendo um contraponto as mudanças que a realidade atual exige.
A história da formação sócio-econômica gaúcha, por exemplo, tem sua tradição de volta a um passado perdido, quando as classes dominantes rio-grandenses, diante da crise da pecuária no último quartel do século 19, idealizaram o “gaúcho” ou gaudério marginal do século 18, transformando-o na identidade de todos os nascidos no Rio Grande do Sul. Dessa perspectiva se criou uma história mítica: de uma suposta escravidão amena; de peões e patrões vivendo em harmonia social; de campos (latifúndios) sem aramados e que devem ser mantidos para todo o sempre; de “centauro dos pampas” valorizado por uma cultura patriarcal e machista; de um passado de lutas históricas pela fronteira que naturaliza e determina para sempre um estereótipo de gaúcho tão ao gosto dos que perpetuam formas de dominações sociais.
A formação social brasileira tem outros dois exemplos: as obras românticas indigenistas criaram uma espécie mítica de brasileiro original, modificando o seu conteúdo e a sua forma, voltando a uma idealização de um passado perdido pré-Cabralino.
Já as obras de Gilberto Freyre idealizaram a sociedade nordestina e brasileira, ao criar através de Casa-grande e senzala uma teoria mítica e conservadora de uma pretensa democracia racial na produção açucareira colonial e nas formas sociais posteriores, onde senhores e escravos, trabalhadores e usineiros representam dois lados de um mundo indivisível e complementar.
Por isso, a questão que se põe não é a negação histórica de 1968. Ele foi de importância ímpar para o Brasil e para o mundo.[3] Mas deve-se compreender que os acontecimentos de 1968 se deram em um momento de bipolaridade mundial com diferenças de contextos nos países capitalistas e nos países socialistas.
Nos primeiros, os trabalhadores e setores da pequena burguesia lutavam por melhoria de seus padrões de vida através da busca de inserção no mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que, principalmente por parte da juventude, se criticava a massificação do consumo e a concorrência individualista que estabelecia a exclusão de setores da população como os negros, as mulheres, os indígenas, etc, ao defenderem, entre outros a questão da extensão dos direitos civis. Exemplo desse processo foram as greves dos trabalhadores franceses no contexto do Maio de 1968 ou a luta pelos direitos civis dos negros, liderada por Martin Luther King nos Estados Unidos, acompanhada pela radicalização da causa pelos Panteras Negras ou pela liderança de Malcolm X. No segundo, aparecia a crítica as restrições de participação política e a um modelo burocrático de socialismo, como foi o caso da Primavera de Praga.
Nesse contexto, salienta-se a luta dos movimentos estudantis em países como Brasil, México, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Guatemala, Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Tchecoslováquia, Suécia, Turquia, Argélia, Marrocos, Tunísia e Japão, os movimentos de contracultura na Inglaterra, Alemanha, França, Brasil e Estados Unidos, os movimentos contra a intervenção militar no Vietnã pelos Estados Unidos e os movimentos pela descolonização da Ásia e da África.
Assim, os anos 1960 ou 1968 não podem ser vistos de forma homogênea em todos os países. Se não estaremos negando a importância daquele momento histórico ou superdimensionando-o. Dessa forma não se cai em visões reducionistas e conservadoras, como aquelas criticadas anteriormente. Muito menos se referenda visões apologéticas e midiáticas que superlativam o maio francês. Não esquecemos que a radicalidade das barricadas de Paris produziram apenas um estudante morto, enquanto que apenas na praça de Tlatelolco, na Cidade do México, em outubro de 1968, se deu o mais violento acontecimento daqueles tempos latino-americanos, através do massacre que resultou em 26 estudantes mortos, 300 feridos e mais de mil aprisionados. Mas disso pouco se fala nos dias atuais.
Enquanto isso, mesmo no Brasil, no combate à reacionária ditadura civil-militar, iniciada desde os primeiros momentos de 1964, quatro anos antes, foram centenas e centenas de mortos, desaparecidos, torturados, exilados, depostos, perseguidos.
No caso do Brasil. 1968 tem significado extraordinário para os estudantes brasileiros (vide o assassinato do estudante Edson Luiz e a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro) e os movimentos políticos da época (principalmente na luta armada e clandestina contra a Ditadura). Mas devemos entender o contexto da época e aprender com eles. No Brasil, as expressões políticas, sociais e culturais do período estavam intrinsicamente relacionados com a realidade de um país envolvido em profundos contrastes. É evidente que parte destes contrastes permanecem até hoje, mas mudaram na forma e na qualidade. Para os que queriam mudanças, o momento era de busca de uma cultura popular aliada à procura de uma identidade nacional no rumo de uma transformação revolucionária para o Brasil. Para os que não queriam, tratava-se apenas de reordenar o país dentro de um modelo de desenvolvimento capitalista associado e dependente sustentado pela aliança conservadora de civis e militares em conjunto com o capital externo, principalmente norte-americano.
Por outro lado, o Maio francês não pode ser ensimesmado. Como não vê-lo influenciado pela Revolução Cultural Proletária da China de 1966 e por um redimensionamento do maoísmo. O combate ao colonialismo e ao neocolonialismo, sobretudo questionando a invasão francesa e norte-americana no Vietnã é anterior aos acontecimentos franceses. Afinal, a Primavera de Praga, iniciada em abril de 1968, não é cronologicamente anterior?
Ainda é preciso entender porque o Maio da França tornou-se um ano mítico, porque “1968” foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível?[4]
Mas é um erro pensar 1968 como um ano fundador dos movimentos sociais ecológicos, feministas, anti-nucleares, dos movimentos negros e homossexuais.
Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos, ao analisar os reflexos dos anos 1960, considera que “a revolução cultural de fins do século 20 pode assim ser mais bem entendida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais”.[5]
Podemos considerar que as visões irracionalistas reforçadas a partir de 1968, principalmente expressadas em segmentos da “Nova História” ou da “Nova Filosofia”, apresentam, nestes tempos neoliberais, boa parte destas perspectivas. Quando se dão as derrotas de 1968, diversos setores intelectuais passam a criticar as transformações globalizantes de mundo e as visões totalizantes de História. Reflexos dessa linha de interpretação são as proposições de visões fragmentárias de mundo, as quais entendem que o conhecimento só pode ser apreendido nas especificidades. Em decorrência, as ações dos movimentos sociais só poderiam se dar no particular, ou nas “tribos sociais”, como considera o sociólogo francês Michel Mafessoli. Estaria estabelecido o fim da utopia, entendida aqui como uma sociedade a ser construída.
A questão final e central que se coloca é: 1968 representou o fim das utopias, sendo um movimento emancipatório do que vivemos hoje. Não se pode negar esta relação, pois os discursos do pos-histoire estão aí para tentar estabelecer a fragmentação definitiva do conhecimento e a microscopia dos movimentos sociais, quando a resistência se daria apenas no âmbito da especificidade. No entanto, em momentos em que em nome de um suposto Estado de Direito se procura terminar com grande parte do direitos sociais e individuais dos trabalhadores e, mesmo assim, em todo o mundo, e em especial na América Latina, diversos setores da sociedade de colocam contra o avanço e as conseqüências do neoliberalismo, está novamente na ordem do dia a volta dos movimentos emancipatórios, no sentido utópico e transformador, a exemplo dos anos 60, sem repetir os erros daqueles tempos. Seria uma forma de conformismo absoluto crer que a única possibilidade de cidadania se restringisse a possibilidade de consumo dos produtos que o mercado tem a oferecer.
Para ultrapassar definitivamente os anos 1960, tem que se ir além da constatação de que aqueles tempos foram o início da crise da globalização centrada no modelo fordista de produção e acumulação. É fundamental considerar o poder do fetiche da mercadoria no capitalismo que pode transformar protestos mais ou menos despolitizados da contracultura e de outros setores sociais, como novas formas de consumismo. Enfim, a lógica que reconhece as diferenças, mas não muda o domínio do capital.
Nunca é demais deixar a pergunta: em tempos da chamada globalização, a quem interessa os discursos que reforçam a incognoscibilidade do real e a impossibilidade de visões globais de mundo? Também não é demais considerar que tais entendimentos são produto da crise de desenvolvimento dos anos 60, que permanecem no início do século 21, quando ainda temos movimentos sociais e políticos desarticulados, os quais não têm conseguido encontrar respostas para os seus dilemas.
Nunca é demais aprofundar sobre o espontaneísmo da “imaginação no poder”, da aparência de ruptura quando se “pedia o impossível” e da efemeridade histórica dos acontecimentos franceses, base material de muitas produções intelectuais idealistas, relativistas, individualistas e fragmentárias do pos-histoire, dos discursos da sociedade pós-industrial, do argumento do fim da sociedade do trabalho, do homem uni-dimensional marcusiano e, sobretudo, do anti-humanismo. Tudo isso poderia ser taxado de simplismo. Mas respondemos a isso com Luc Ferry e Alain Renault: “na verdade, é contudo a crítica do humanismo, do sujeito, da metafísica, da autonomia, da antropologia ou da verdade, que evidencia um impressionante e persistente simplismo”.[6]
Não é por nada que, 40 anos depois de 1968, aumenta a consciência de que hoje as contradições do desenvolvimento capitalista e neoliberal, em sua fase imperialista, ensejam novas rearticulações em torno do social e da grande política, em contraposição às saídas individuais e consumistas. Esta pode ser a retomada, em outros patamares históricos, da velha e tão nova utopia socialista.
Notas
[1] Ver - VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. 14ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
[2] REIS FILHO, Daniel Aarão; MORAES, Pedro de. 68: a paixão de uma utopia. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988, p. 52.
[3] Para Patrick Rotman, cineasta e historiador, ‘nos anos pós-Maio de 68, a busca de si tornou-se uma prioridade e as questões relativas à intimidade entraram no debate político. Temas como a família, as relações entre pais e filhos e a liberação sexual entram na ordem do dia. O grande legado do movimento reside nestes questionamentos e transformações incorporados à vida cotidiana de milhões de indivíduos”. Cf. A geração das barricadas. In. História Viva, ano 5, n. 54. São Paulo: Duetto Editorial, abril de 2008, p. 39.
[4] Ver estas referências em SCHLLING, Voltaire. 1968: a revolução inesperada. In. http://www.zaz.com.br/voltaire/mundo/1968.htm. Acesso em 10/05/2008.
[5] Cf. HOBSBAWM, Eric. 1995. Era dos extremos: o breve século XX. 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, p. 328.
[6] Ver FERRY, Luc; RENAUT, Alain. Pensamento 68: ensaios sobre o anti-humanismo contemporâneo. São Paulo: Ensaio, 1988, p. 264.
* Este artigo é uma visão ligeiramente modificada e atualizada do artigo “1968: do passado para o futuro”. In. SCHERER, Amanda Eloína; NUSSBAUMER, Gisele Marchiori; DI FANTI, Maria da Gloria (orgs.). Utopias e distopias: 30 anos de maio de 1968. Santa Maria: Departamento de Ciências da Informação/Mestrado em Letras, 1999, p. 41-8.
**Diorge Alceno Konrad, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP
O dia a dia das lutas de maio
MUNDO
Janeiro
Dia 5 - Na Tchecoslováquia, a vitória eleitoral do ministro Alexander Dubček marca o início da Primavera de Praga; seu governo inicia uma política de liberalização do regime, enfrentando a oposição da União Soviética.
Dia 31 - No Vietnã, os vietcongs lançam ofensiva do Tet; atacam a embaixada americana em Saigon (atual Ho Chi Ming) e a base Da Nang, e tomam a cidade de Hue. A ofensiva mudou a posição da opinião pública estadunidense em relação à guerra do Vietnã.
Março
Dia 16 – Massacre de My Lay: tropas dos EUA matam 567 homens, mulheres e crianças na aldeia vietnamita de Tuongan. A denúncia foi feita por sobreviventes que foram enterrados junto com os cadáveres.
Dia 22 – Começa na Universidade de Nanterre, próxima a Paris (França), o movimento estudantil que levará ao levante de Maio de 1968.
Dia 26 – Na Espanha, a polícia do ditador Francisco Franco prende centenas de militantes das Comisiones Obreras; os trabalhadores reagem com greves de protesto.
Dia 29 – O governo institui o estado de emergência e o toque de recolher em Memphis, Tennessee (EUA), para reprimir uma rebelião negra.
Abril
Dia 4 – O pastor Martin Luther King, líder da campanha pelos direitos civis dos negros, é assassinado em Memphis, Tennessee (EUA).
Dia 6 – Em Oakland (EUA), tiroteio entre a polícia e militantes do grupo Panteras Negras.
Dia 18 – Na França, o governo manda fechar a Universidade de Nanterre (nos arredores de Paris), em reação contra o movimento estudantil que crescia desde novembro de 1967.
Dia 23 – Na Universidade de Colúmbia, em Nova York (EUA), começam os protestos dos estudantes contra a guerra do Vietnã.
Maio
Dia 3 – Protesto de estudantes na Universidade de Paris (Sorbonne). A polícia, chamada pelo reitor, intervém; depois de quatro horas de batalha, havia 72 policiais feridos e 600 estudantes foram presos. O governo manda fechar a universidade; é a primeira vez que isso ocorre, em 700 anos. A UNEF (Union Nationale des Étudiants de France) organiza passeatas que são dissolvidas com violência pela polícia.
Dia 6 – Grande passeata, em Paris, contra o fechamento da Sorbonne. No dia 7, nova manifestação de estudantes é reprimida pela polícia; 800 continuavam presos.
Dia 8 – Manifestações de estudantes na França e em vários países (Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica e México).
Dia 10 – Na França, sindicalistas e várias categorias profissionais (bancários, comerciantes, funcionários públicos, jornaleiros, professores), aderem ao protesto dos estudantes, transformando o movimento numa contestação política do governo do general Charles De Gaulle.
Dia 13 – Começam, em Paris, as negociações entre EUA e Vietnã, para por fim à guerra. Nesse dia, os principais sindicatos de trabalhadores franceses aderem aos protestos e fazem greve de 24 horas. Paris assiste à maior manifestação popular desde o final da Segunda Grande Guerra, com mais de um milhão de estudantes e trabalhadores.
Dia 15 – Na França, revolta operária por todo o país, com ocupações de fábricas; na Itália, a Universidade de Milão é ocupada pelos estudantes.
Dia 17 – Aumentam as ocupações de fábricas por toda a França.
Dia 22 – Greve geral, com a adesão de 10 milhões de operários, paralisa toda a França.
Dia 30 – O presidente francês, general Charles De Gaulle, anuncia a convocação de eleições parlamentares.
Junho
Dia 4 - O candidato à presidência dos Estados Unidos, o senador democrata Robert Kennedy (irmão do presidente assassinado John Kennedy) é morto a tiros em Los Angeles, na Califórnia.
Dia 11 – Novas manifestações em Paris, reprimida pela polícia; duas pessoas (um estudante e um operário) são mortas; a Sorbonne continua ocupada, e os operários mantém a greve.
Dia 17 – A polícia invade a Sorbonne, em Paris, desalojando centenas de estudantes que ocupavam a universidade há 47 dias.
Julho
Dia 1 – 137 países assinam o acordo de não proliferação nuclear.
Dia 25 - O papa Paulo VI divulga a encíclica Humanae vitae, em que condena o uso de anticoncepcionais.
Agosto
Dia 20 – Fim da Primavera de Praga: tropas soviéticas e do Pacto de Varsóvia invadem Praga, na Tchecoslováquia, colocando um fim à política de reformas do governo de Dubček.
Setembro
Dia 27 - Em Portugal, Marcello Caetano assume a chefia da ditadura portuguesa, depois do afastamento de Antônio Salazar (que estava no governo há 32 anos), por ter sofrido um derrame cerebral.
Outubro
Dia 2 – Massacre de Tlateloco, na cidade do México; o Exército reprime a bala uma manifestação estudantil, matando 48 pessoas.
Dia 3 - Golpe militar nacionalista no Peru, dirigido pelo general Velasco Alvarado; nacionaliza a Standard Oil e inicia uma reforma agrária.
Dia 5 – Em Derry (Irlanda), a repressão policial inicia choques com a população, reabrindo a luta contra o domínio britânico na Irlanda do Norte.
Dia 11 – Lançada, pelos EUA, a Apollo 7, importante etapa para a viagem a Lua, que seria realizada em 1969. Pela primeira vez, três astronautas viajam na mesma missão, que durou onze dias. Foi também a primeira a ser transmitida pela televisão.
Novembro
Dia 5 – O republicano Richard Nixon é eleito presidente dos EUA.
Dezembro
Dia 9 – Em um evento na Universidade de Stanford (EUA), Douglas Engelbart exibe o primeiro computador com mouse (desenvolvido por ele), monitor e teclado.
Dia 21 – Lançada, nos EUA, a nave Apollo 8, que foi a primeira a levar seres humanos (os astronautas Frank Borman, James A. Lovell e William A. Anders) a órbita da Lua. Eles circunavegaram a Lua na noite de Natal de 1968, e voltaram para a Terra em 27 de dezembro.
BRASIL
Março
Dia 28 – No Rio de Janeiro o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, é pela polícia durante um protesto no restaurante Calabouço. No dia seguinte, seu enterro foi acompanhado por 50 mil pessoas, transformando-se numa manifestação contra a ditadura.
Dia 31 – A polícia ocupa a Universidade de Brasília.
Abril
Dia 1 – Passeatas de estudantes contra a ditadura no Rio de Janeiro (um estudante morto e vários feridos), São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia (um estudante morto), Fortaleza, Florianópolis, e várias cidades do interior de São Paulo.
Dia 4 – No Rio de Janeiro, missa de 7º dia pelo estudante Edson Luís, reprimida pela polícia; o general Costa e Silva, ocupante da presidência da República, publica a Portaria 177, proibindo a Frente Ampla e apreendendo livros, jornais e outras publicações.
Dia 16 – Começa a greve de 15 mil metalúrgicos em Contagem (MG); obtém aumento salarial de 10%, inédito desde 1964.
Dia 17 - A ditadura militar decreta o fim de eleições diretas para prefeito em 68 cidades consideradas de "segurança nacional", inclusive as capitais dos Estados.
Maio
Dia 1° - Em manifestação na Praça da Sé, em São Paulo, trabalhadores protestam contra a ditadura; uma pedra atinge o governador Abreu Sodré, que estava no palanque.
Dia 3 – Estudantes ocupam a faculdade de Medicina, em Belo Horizonte (MG); no dia 5, a polícia prende 117 estudantes.
Dia 23 – Manifestação, em São Paulo, de estudantes secundaristas.
Junho
Dia 2 – Em São Paulo, estudantes ocupam o prédio da PUC.
Dia 12 – Estudantes ocupam a reitoria da USP, em São Paulo.
Dia 21 – Passeata de estudantes no Rio de Janeiro; ficou na história como a “sexta-feira sangrenta”, com saldo de quatro mortos (entre eles um policial), 23 pessoas baleadas, 35 soldados feridos e mais de mil presos. Helicópteros do Para-Sar (unidade de pára-quedistas dedicada ao salvamento) são usados na repressão à passeata.
Dia 25 – A equipe de cardiologistas do médico Euricledes de Jesus Zerbini realiza, em São Paulo, o primeiro transplante de coração realizado no Brasil (foi o 17° no mundo).
Dia 26 – No Rio de Janeiro ocorre a Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação contra a ditadura militar ocorrida até então, Teve a participação de estudantes, trabalhadores, intelectuais, artistas e ativistas políticos. Foi dedicada à memória do estudante Edson Luís, morto pela polícia em março.
Dia 26 – Em São Paulo, ataque da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) contra o QG do II Exército – SP, usando um carro-bomba; o soldado Kosel Filho, que estava de sentinela, morreu no ataque.
Dia 28 – Passeata em Porto Alegre, reprimida violentamente pela Brigada Militar gaúcha.
Julho
Dia 3 – Passeata de estudantes em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Dia 5 – O ministro da Justiça, Gama e Silva, proíbe a realização de passeatas em todo o país.
Dia 13 – A brasileira Martha Vasconcellos é escolhida Miss Universo.
Dia 17 – Em São Paulo, estudantes ocupam a Faculdade de Direito da USP. O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invade o teatro Ruth Escobar, onde é encenada a peça Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda. Agride os atores e o público e destroem o teatro onde a peça era apresentada. Começa a greve em seis metalúrgicas de Osasco (SP), com a ocupação da Cobrasma. O ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, intervém no Sindicato; tropas do Exército ocupam a fábrica (dia 20), e os trabalhadores são retirados com as mãos na cabeça, sob a mira de carros blindados e metralhadoras.
Dia 23 – Passeata de estudantes em São Paulo.
Agosto
Dia 9 – Passeata de estudantes no Rio de Janeiro.
Dia 28 – Passeata de estudantes em São Paulo; 500 são presos.
Dia 29 – 200 soldados da PM e 100 agentes do DOPS invadem a Universidade de Brasília. Vários estudantes são feridos à bala; entre os presos estava o líder estudantil Honestino Guimarães
Setembro
Dia 2 - O deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB/RJ, discursa na Câmara dos Deputados, contra a invasão policial da Universidade de Brasília. Propõe que o povo boicote a comemoração do dia 7 de setembro e pede para as moças não dançarem com cadetes. A reação dos generais é de irritação, e eles pressionam a Câmara pela cassação do deputado.
Outubro
Dia 2 – Início da “Batalha da Maria Antônia”: conflito, em São Paulo, entre estudantes direitistas da Universidade Mackenzie e alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia; estudante secundarista José Carlos Guimarães, de 20 anos, foi morto com um tiro.
Dia 4 – mais de 10 mil pessoas acompanham o enterro do estudante José Carlos Guimarães, morto na “batalha da Maria Antônio”; a polícia reprime a manifestação, e várias pessoas são presas.
Dia 8 – Chega ao Supremo Tribunal Federal o pedido de licença, feito pelo governo, para processar o deputado Márcio Moreira Alves. Início da greve de 10 mil canavieiros em Cabo (PE)
Dia 10 – É denunciado o Caso Parasar, uma tentativa do setores radicais de direita das Forças Armadas de usar essa unidade de salvamento da Força Aérea Brasileira (FAB) para exterminar adversários políticos da ditadura militar.
Dia 13 - A polícia invade o XXX Congresso da UNE, que era realizado em Ibiúna, (SP); mais de 700 delegados presentes foram presos, entre eles Luis Travassos (presidente da UNE), Vladimir Palmeira, José Dirceu, Antônio Ribas (presidente da UPES) e Helenira Resende.
Dias 22 e 23 – Dias nacionais de protesto contra a prisão dos delegados ao congresso da UNE, em Ibiúna (SP); o slogan “A UNE somos nós, nossa força, nossa voz” é usado pela primeira vez.
Novembro
Dia 7 - Inaugurada, em São Paulo, a nova sede do MASP, localizada na avenida Paulista e projetada por Lina Bi Bardi.
Dia 22 – A ditadura militar cria o Conselho Superior de Censura.
Dezembro
Dia 12 – A Câmara dos Deputados nega a licença para o governo processar o deputado Márcio Moreira Alves.
Dia 13 - O general Costa e Silva manda fechar o Congresso Nacional e decreta o AI-5 (Ato Institucional número 5), dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar.
ARTES E CULTURA
Mundo
- Gravação da canção Hey Jude (The Beatles)
- Roman Polansky filma, nos EUA, O Bebê de Rosemary.
- Estréia, na Broadway, em Nova York (EUA), o musical Hair, o primeiro grande musical de rock, inspirado no movimento hippie.
- Lançamento, nos EUA, do filme Barbarella, com Jane Fonda; direção de Roger Vadim.
- Lançado, nos Estados Unidos o filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick.
- Constantin Costa-Gavras roda, na Grécia, o filme Z
- Na Itália, Frederico Zeffirelli filma Romeu e Julieta.
Brasil
- A canção Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque) é uma das finalistas do Festival da Música Brasileira.
- Lançamento do disco Tropicália, ou Panis et Circensis, com Caetano, Gil, Gal, Mutantes, Tom Zé e Nara Leão, e arranjos do maestro Rogério Duprat.
- A TV Tupi de São Paulo inicia a apresentação do programa Divino, Maravilhoso, com direção de Fernando Faro e participação dos "tropicalistas"; foi ao ar até dezembro.
- A canção São São Paulo, meu amor, de Tom Zé, vence o IV Festival de MPB da TV Record; Memórias de Marta Saré, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, fica em segundo lugar e Divino, maravilhoso, de Caetano e Gil, fica em terceiro.
- Apresentação, no III Festival Internacional da Canção (FIC), de músicas de protesto contra a ditadura como: Para não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré), Questão de ordem (Gilberto Gil) e É proibido proibir (Caetano Veloso). Caetano Veloso, vaiado, respondeu ao público dizendo: "Vocês não entendem nada! Vocês estão querendo policiar a música brasileira!".
- Lançamento do filme O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.
- Glauber Rocha filma O dragão da maldade contra o santo guerreiro.
Cartazes de Maio de 68
Maio de 1968 / 1968-1

Maio de 1968 / 1968-2

Maio de 1968 / 1968-3

Maio de 1968 / 1968-Edson-Luís

Maio de 1968

Maio de 1968 / 68-100-mil

Maio de 1968 / 68-edson-luís-B

Maio de 1968 / 68-estudantes

Maio de 1968 / Ato-5-1968

Maio de 1968 / Greve-Contagem-1968

Maio de 1968 / greve-osasco

Greve na Cobrasma – Zequinha Barreto

Na madrugada de 16 para 17 de julho de
1968, Zequinha é preso após dar
cobertura à fuga de dezenas de
companheiros na ocupação da Cobrasma

Cobrasma - Osasco

Lonaflex - Osasco

Maio de 1968 / Honestino-1

Maio de 1968 / Passeata-dos-100-mil

Maio de 1968 / roda-viva-1

Maio de 1968 / UNE-1967-Travassos

Mai68: La contestation
Mai 68: Les grèves à Paris
Maio de 68